Esta casa senhorial, antigamente conhecida como Quinta da Costa, localiza-se em Canelas no lugar de Negrelos, datando mais antiga do ano 1042. Tendo sido adquirido em 1982 pela autarquia adminstrada pela GaiaAnima,Em. Á sua história estão ligados os nomes de Tomé da Costa, influente fidalgo dos finais do século XVII; o mestre de campo Tomé da Silva Baldaia (século XVIII); Manuel Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto de Miranda e Figueiroa, 1º visconde de Beire e comandante do regimento de Infantaria 18 duarnte a Guerra Peninsular. Sua filha, Dna. Maria Balbina Pamplona Carneiro Rangel, casou com o 4º Conde de Resende, D. António Benedicto de Cstro, neto do 13º vice- rei do Brasil, passando a propriedade a integrar o patrimónia desta família. Em 1869 o 5º Conde , D. Luís Manuel Benedicto de Castro Pamplona fez uma célebre viagem ao Egipto na companhia do seu antigo condiscípulo e amigo Eça de Queiróz, que 1886 casaria com sua irmã Maria Emília de Castro Pamplona, ligando-se assim o mais universal dos escritores portugueses a esta família, em cujo ambiente temploral e mental se terá inspirado para algumas das suas obras imortais. Para além do Complexo indicado, é aqui notável o Jardim das Camélias, e a estátua em Bronze do famoso escritor da autoria do escultor Hélder de Carvalho. Os diversos edíficios acolhem o núcleo Museológico de arqueologia, o centro de Documentação, composto por Biblioteca especializada e Arquivo Condes de Resende, a colecção Marciana Azuaga, disposto ainda de salas de exposições temporárias , modernas instalações para congressos e outros eventos culturaias. Na programação anual destacam-se as festas do solstício de Verão e as comemorações Queirosianas em Novembro, para além de actividades quotidianas nos domínios da arqueologia, história, antropologia cultual e patrimónios relacionados com o Munícipio e a região envolvente e afinal com todo o Mundo com quem a história da Casa e as suas colecções se relacionam.

Ana Maria Amaro

(texto adaptado do catálogo da Exposição)

 

É nossa robusta convicção de que nenhuma outra terra portuguesa, excepção feita à Póvoa de Varzim, fará tamanho jus a invocar a figura do romancista Eça de Queirós como na terra de Canelas.
E isto porque, se aquele que viria a ser um talentoso escritor saltou para a vida na Póvoa de Varzim, foi em Canelas , no Solar dos Condes de Resende, que ele nasceu para o Amor, dado que nesse espaço solene e fidalgo, conheceu a mulher de toda a sua vida: Emília de Castro, garante de toda uma “disciplina intelectual, económica, moral e doméstica” por quem ansiava desde há muito. Com efeito, numa carta dirigida a Manuel de Castro, datada de Julho de 1885, escreveu Eça de Queirós: “A minha afeição por tua irmã não foi improvisada o ano passado, na Granja na Casa Nova. Data de uma ocasião mais antiga de quando eu te fui ver a Canelas.”
Se mais razões não houvera, bastaria esta para que Canelas se ufanasse de consagrar um pedaço do seu torrão a este insigno Mestre da arte da palavra. Mas há, pelo menos, outra. Se é verdade, como disse Luís de Camões, que os homens que deixavam obras valorosas se libertam da inexorável lei da morte, então sentimos que Eça está entre nós e que aceita com agrado esta nossa homenagem. E aceita-a porque assinalada no dia da Liberdade, na tarde de 25 de Abril de 1974, não precisou de vir á rua pôr-se em bicos de pés nem gritar alto a pressa de apagar a imagem – que nunca foi sua – de quem sempre viveu silenciosamente, servilmente ajoelhado diante do altar do poder iníquo.
O autor de “Os Maias” achar-se-á tão bem em Canelas como entre os seus companheiros de 1870, generosamente empenhados numa Revolução que recuperasse a dignidade do Homem e que sempre fosse servida por uma inteligência sem arrogância, apoiada na Liberdade que o une e não divide e que repudiasse as Verdades definitivas e oficiais.
Nesta alameda, o seu livro ficará como apelo permanente às sucessivas gerações para que busquem os grandes textos literários a beleza e o mistério que sempre encerram e que permitem ao leitor fruir estético que consola a alma e que nenhum ouro do mundo pode comprar.
Mas para tanto é necessário e urgente que os programas de língua portuguesa abdiquem corajosamente, patrioticamente das roupagens das definições pesadas e de outras inutilidades académicas a favor de um estudo directo, prático, inteligente da palavra em sintaxe, para que um livro seja fonte de saber e prazer, e não, como disse o poeta Fernando Pessoa, um punhado de “papéis pintados com tinta”.
Em jeito de aparte, permitindo-nos felicitar a nossa Autarquia que, muito ocupada- como deve ser com o progresso material da Vila, revela nesta feliz circunstância que está atenta e sabe responder às exigências culturais que nenhuma pessoa de equilibrada formação e sensibilidade dispensa.
A rematar esta modesta evocação queirosiana, pedimos a atenção para uma breve frase da autoria de outro grande escritor português, recentemente falecido – Vergílio Ferreira, propósito de Eça de Queirós:
“O estilo é verdadeiramente ou deve sê-lo um modo especifico de sentir o mundo feito vocábulo e não de sentir o vocábulo feito mundo (…) Se se escreve uma palavra, há necessáriamente que entender-lhes o valor. Eça é quem melhor o sabe para no-lo ensinar”.

(Dr. Abel Couto)